Corpoflor
Série fotográfica
Vitória, 2016—presente 



Em 2016 eu inicio minha interrupta transição de gênero e transmutação da carne. Nesses primeiros movimentos de transfiguração, começo a desenvolver estéticas sobre aquilo que à mim ainda continua sendo indescritível: meu prazer em transfigurar. "Corpo-flor" é o jeito que decidi nomear uma promessa que fiz a mim mesma: continuar transmutando num hibridismo radical com vidas de outros reinos e mundos. Porque sempre que Corpo-Flor aparece, há uma nova aparência, uma nova mistura de signos, símbolos, cores, texturas, caretas, olhar, porque Corpo-flor é uma fagulha de mim que eu criei para me fazer lembrar de que posso sempre assumir formas de viver e estar não previstas por mim ou à mim. essa promessa de dar continuidade às minhas transfigurações da carne... nas imagens eu registro momentos de medo, dor, coragem, raiva, tesão dessa promessa.... e criar essas imagens são rituais que me dão energia para continuar minhas perambulações entre no mundo dos vivos e mortos.

Autoretratos. e quando não, apenas meus familiares e amigas me fotografam. 

Em 2021 se completam 6 anos de corpoflor . Criei quando não conseguia explicar o que estava acontecendo em mim. Gêneros...musculos... temperaturas...Continuo fazendo porque descobrir o prazer em não ser entendida. Corpoflor é uma promessa: modificar a Forma, preservar a coragem, insistir na Verdade: ainda me desconheço. Quando incorporo corpoflor, me sinto agradecendo à efemeridade. é uma reconexão, algo parecido com o ato de se alimentar. A satisfação. O Diabo. A temperança.

                                       
                                                                     

Este primeiro grupo de fotos foi realizado com incentivo da Bolsa de Fotografia ZUM/IMS 2021, durante os meses de janeiro em Alcantara-Maranhão e fevereiro em Vitória-Espirito Santo de 2022. 


Por muito tempo, acreditei que Corpoflor referenciava apenas a mim, e durante esse tempo eu construí esse Ser, num movimento de resistência à violência da racialização. Digo, porque também por muito tempo eu vivi uma solidão absurda em meu primeiro local de morada, Vitória. A transição de gênero me arremessou numa camada ainda mais profunda dessa solidão, e Corpoflor acompanhou tais angústias. No entanto, ao longo desses seis anos de obra, foi percebendo que algumas camadas de minha vida mudaram de rota, e Corpoflor se tornou uma nomenclatura que mais designa uma espécie do que um nome que diz respeito apenas a uma só vida. É neste momento que eu decidi apostar na indescritível, após inúmeras idas e vinda a Ilha de Vitória.Ou seja, foram esses vários momentos de deslocar da ilha, e conhecer outros mares e continentes, foram essas viagens, por muitas vezes forçadas, tristes, e também felizes, inesquecíveis, que me possibilitaram construir um sonho: encontrar com as outras vidas que compõem essa ontologia Corpoflor.

Encontrar essas pessoas tem sido emocionante, porque é muito bonito acompanhar como que, mesmo sendo modificadas por mim, tendo seu corpo modificadas pelo meu desejo, ainda assim existe algumas particularidades estéticas e gestuais que prevalecem durante o momento de incorporar corpoflor. Perceba nas fotos. Isso é incrível, isso é liberdade. Poder transfigurar a matéria negra, e relembrar que a transfiguração é a única certeza, é a mais poderosa verdade, pois é só ela que possui o poder de encerrar com a história da racialização em nossas vidas.









Composições para tempos insurgentes
Obra: Série Corpo-flor
Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro.
Curadoria.  Beatriz Lemos, Keyna Eleison e Pablo Lafuente
2021


Corpoflor 
Castiel Vitorino Brasileiro
Série fotográfica 
Fotografia digital
Vitória, São Paulo, Alcantara
2016-presente




Produção Castiel Vitorino Brasileiro, Larissa Brasileiro Silva, Rodrigo Jesus, Maksuel Loureiro Brasileiro